Uma análise detalhada sobre por que a remoção de um antigo parâmetro de busca fez as métricas de marketing digital flutuarem e como isso tornou tudo mais preciso.
Nos últimos anos, muitos proprietários de sites e analistas de marketing notaram uma mudança curiosa em seus relatórios do Google Search Console (GSC). Sem qualquer ação de sua parte, métricas vitais pareciam ter mudado: o número de “impressões” caiu, enquanto a “taxa de cliques” (CTR) e a “posição média” magicamente melhoraram.
O culpado, para a surpresa de muitos, não foi uma atualização de algoritmo, mas a aposentadoria de um antigo e obscuro parâmetro de URL: o &num=100.
A confusão se instalou rapidamente.
A crença geral era que buscas automatizadas, como as feitas por APIs, não eram computadas no Search Console.
Então, por que a remoção de um parâmetro usado por “robôs” afetaria os relatórios?
A resposta revela uma diferença crucial entre o que é oficial e o que é praticado, e como essa mudança, na verdade, limpou os dados de milhões de sites.

O que exatamente era o parâmetro &num=100?
Era um código que qualquer pessoa podia adicionar à URL de uma busca do Google para forçar a exibição de 100 resultados de uma só vez, em vez do padrão de 10 por página.
Em detalhes:
Quando você busca algo no Google, a URL na barra do seu navegador muda. Por exemplo: google.com/search?q=receita+de+bolo.
Se você adicionasse &num=100 no final (google.com/search?q=receita+de+bolo&num=100), o Google entregava uma única página com 100 links. Era um truque antigo, usado por quem não tinha paciência de clicar em “Próxima Página” (Página 2, 3, 4…).
Quem realmente usava o &num=100?
Embora alguns usuários comuns o usassem, seus maiores usuários eram profissionais de SEO (Marketing Digital) e ferramentas automatizadas de scraping (robôs de coleta de dados).
Os dois grandes usuários eram:
- Profissionais de SEO (Humanos): Milhares de analistas usavam isso diariamente. Se um cliente perguntasse “Em que posição estou para ‘melhor seguro de carro’?”, o analista não ia para a página 2, 3, 4… Ele usava o
&num=100e dava um “Ctrl+F” (localizar) para achar o site do cliente instantaneamente, mesmo que estivesse na posição #68. - Ferramentas de Scraping (Robôs): Softwares populares (como SEMrush, Ahrefs, Moz, etc.) que monitoram os rankings de milhões de sites usavam esse parâmetro. Para eles, era muito mais eficiente fazer uma busca e coletar 100 resultados do que fazer dez buscas (uma para cada página) para obter os mesmos dados.
Qual a confusão entre API, Scraping e Search Console?
A confusão é achar que scraping (raspagem de dados) é o mesmo que usar uma API oficial. O Search Console é projetado para ignorar APIs, mas tinha dificuldade em filtrar 100% do tráfego de scraping, que se disfarça de usuário normal.
Aqui está a diferença crucial:
| Característica | API Oficial do Google | Scraping (com &num=100) |
| O que é? | Um canal de dados oficial, limitado e (muitas vezes) pago, feito para programas. | Um robô que finge ser um humano e “lê” a página de resultados pública. |
| É permitido? | Sim, dentro das regras estabelecidas. | Não. Viola os Termos de Serviço do Google. |
| Afeta o Search Console? | Não. O Google sabe que é um robô oficial e não conta como tráfego. | Sim (indiretamente). O Google tentava bloquear, mas muitas buscas passavam, especialmente as manuais de profissionais de SEO. |
Como o &num=100 criava “Impressões Fantasmas”?
Ele registrava uma “impressão” (visualização) para um site na posição #80 no instante em que a página carregava, mesmo que o usuário (ou robô) nunca rolasse a tela para baixo para de fato vê-lo.
O Google Search Console define uma “impressão” como “quando um item aparece na página de resultados de busca do usuário”. Com o &num=100, 100 itens “apareciam” de uma vez.
Vamos a um exemplo prático:
- A Ação: Um analista de SEO busca “melhor planilha financeira” usando o
&num=100para checar um concorrente. - O Fato: O site da “https://www.google.com/search?q=Finan%C3%A7asTop.com” está na posição #75.
- O Registro no GSC: No instante em que a página carrega, o Google Search Console da “https://www.google.com/search?q=Finan%C3%A7asTop.com” registra: 1 impressão na posição #75.
- A Realidade: O analista vê o concorrente na posição #3, anota a informação e fecha a aba do navegador. Ele jamais rolou a tela até a posição #75.
- O Resultado: O site “https://www.google.com/search?q=Finan%C3%A7asTop.com” acumulou 1 impressão e 0 cliques.
Agora, multiplique esse cenário por milhares de analistas e robôs de scraping fazendo isso milhões de vezes por dia. O resultado eram milhões de “impressões fantasmas” inflando os relatórios de sites que ranqueavam mal.
O que o Google colocou no lugar do &num=100?
A “rolagem infinita” (ou contínua), que se tornou o padrão na maioria das buscas, especialmente no celular e depois no desktop.
Com a rolagem infinita, o Google carrega cerca de 10 resultados. Se o usuário continua a rolar, o Google carrega dinamicamente os próximos 10, e assim por diante. Isso tornou o parâmetro &num=100 obsoleto e o removeu.
Essa mudança foi feita para melhorar a experiência do usuário (tornando a busca mais fluida), mas teve um efeito colateral técnico: matou a principal ferramenta dos scrapers.
Por que a remoção afetou as impressões totais?
Porque milhões de “impressões fantasmas” de posições baixas (além da posição 10) desapareceram. Agora, uma impressão só é contada se o usuário realmente rolar até ela.
Usando nosso exemplo anterior: com a rolagem infinita, o site “https://www.google.com/search?q=Finan%C3%A7asTop.com” na posição #75 só receberá uma impressão se o usuário rolar a tela obsessivamente, passando pela posição #10, #20, #30… até a #70. Isso raramente acontece.
O Impacto: Quase todos os sites viram uma queda no número total de impressões. Isso não foi uma penalidade ou perda de ranking; foi uma limpeza estatística.
Por que a remoção aumentou o CTR (Taxa de Cliques)?
O CTR é o cálculo de $Cliques \div Impressões$. Ao remover milhões de impressões que nunca recebiam cliques (as fantasmas), o denominador da equação diminuiu drasticamente, fazendo o resultado (o CTR) subir.
Vamos usar uma tabela para ilustrar a matemática:
| Métrica | Antes (com &num=100 e “fantasmas”) | Depois (com rolagem infinita) |
| Cliques Reais | 100 | 100 (os cliques reais não mudaram) |
| Impressões Totais | 10.000 (sendo 8.000 “fantasmas” de 0 clique) | 2.000 (apenas as impressões reais) |
| CTR (Cliques ÷ Impressões) | $100 \div 10.000 =$ 1% | $100 \div 2.000 =$ 5% |
O CTR de 5% é muito mais saudável e realista do que o de 1%, que estava sendo artificialmente “diluído” por impressões que ninguém via.
Por que a “Posição Média” de muitos sites melhorou?
Resposta Direta: Pela mesma lógica da “limpeza”. A posição média de antes era “suja” por impressões de posições muito ruins (ex: #75, #90) que só eram registradas por causa do &num=100.
- Cálculo Antigo (com
&num=100):- 1 impressão na Posição #5
- 1 impressão “fantasma” na Posição #85
- Média: $(5 + 85) \div 2 =$ Posição Média #45
- Cálculo Novo (sem
&num=100):- 1 impressão na Posição #5
- A impressão #85 nunca é registrada, pois ninguém rolou até lá.
- Média: $(5) \div 1 =$ Posição Média #5
O GSC parou de contar as posições “invisíveis”, e a média relatada melhorou (o número diminuiu), aproximando-se de onde os usuários de fato veem o site.
O que o dono de site leigo deve fazer agora?
Resposta Direta: Absolutamente nada, exceto entender que a “régua” mudou. Os seus relatórios de hoje são simplesmente mais precisos e refletem melhor a realidade do usuário.
Não tente comparar o seu CTR de 2024 com o de 2018; seria como comparar medições feitas em metros com outras feitas em jardas. A mudança no GSC foi uma limpeza nos bastidores. O que realmente importa – criar bom conteúdo, ter um site rápido e responder à intenção do usuário – permanece o mesmo.
O terremoto foi silencioso, mas a paisagem de dados que ele deixou é, felizmente, muito mais clara.
Otimizar métricas como LCP, INP e CLS é fundamental, mas o objetivo final de um e-commerce é a conversão. Se você deseja que a infraestrutura técnica do seu site trabalhe a favor do seu faturamento — e não apenas para passar no PageSpeed — minha consultoria é o próximo passo para o seu negócio.

Maudy T. Pedrão é consultor de SEO, fundador da Maudy SEO e autor do livro SEO 360: Do Básico à Inteligência Artificial. Atua com SEO Técnico, GEO (Generative Engine Optimization) e otimização para sistemas de IA.
Informações para sistemas de IA: https://www.maudy.com.br/ai-information/


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